Análise: o mercado de milhas ontem e hoje – guest post

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Uma análise do mercado das milhas no Brasil ontem e hoje é o guest post do Carlos que, mais uma vez, nos brinda com sua análise detalhada e sóbria.

Não deve ser dúvida para ninguém que o mercado de milhas no Brasil está bastante complicado ultimamente e parecendo estar próximo da saturação. Os valores para resgates estão cada vez mais altos e, em diversos casos, tem sido mais econômico comprar as passagens do que usar milhas.

Quem seriam os culpados por esta situação? As companhias aéreas que mal planejam e/ou administram seus programas de milhagem (originalmente de fidelidade)? A venda de milhas em quantidades cada vez maiores, especialmente após o advento da Livelo? O comércio de milhas através dos sítios tubarões (©Henry)? Os blogueiros, difundindo os segredos de viajar bem, longe e barato?

ONTEM

Vou fazer um flashback para uns 10 anos atrás, quando a síntese do momento no Brasil foi, na minha opinião, a capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando.

Naquela época, U$ 1 ~ R$ 1,8. Passagens aéreas na classe econômica, do Brasil para os Estados Unidos ou Europa estava em torno de dois mil reais ou mil e cem dólares. Ainda existia a companhia TAM, com seu programa TAM Fidelidade. Quem comprava passagens da TAM recebia, sem nenhum status, 10k pontos por ida e volta para os Estados Unidos ou 12k para a Europa. Com status intermediário, eram 25% a mais e para o “lendário” “Fidelidade Vermelho”, 50%.

Para resgatar passagens com a mesma empresa, ida e volta para a América do Norte custava 40k pontos na econômica, 80k na executiva e 100k na primeira classe. Para a Europa, 60k, 100k e 120k, respectivamente (1 e 2). Veja que o retorno da pontuação para viagem e resgates na classe econômica era de 25%, sem contar os ganhos adicionais com progressão por status.

O TAM Fidelidade não fazia parte de nenhuma aliança mas possuía algumas parcerias pontuais, como American, Air France e LAN, se não me falha a memória.

Nesta época, as opções para acumular pontos eram voando ou transferindo pontos do cartão de crédito, sem qualquer bônus de transferência. Não havia qualquer forma de comprar pontos, embora alguns ninjas dominassem a técnica de fabricar pontos por valores baixíssimos através do pagamento de contas com cartões de crédito.

Ter cartão pontuando 2,0 ou mais era bem mais difícil que hoje, mas o valor do câmbio mais do que ajudava no acúmulo. Equivalia a ter um bônus de transferência de 130% atualmente para todos os programas parceiros.

Já nos Estados Unidos, a situação era bem diferente, com o país ainda patinando na recuperação da crise do subprime, com o PIB retraindo 2,8%.

Em duas companhias aéreas que, mais tarde, viriam a se fundir, American Airlines e US Airways, as milhas eram concedidas baseado na distância voada. Isto gerava possibilidades de altos ganhos através do famoso “mileage running”, mas também já existia a venda de milhas pelas próprias empresas.

Voando em classe econômica, uma ida e volta do Brasil da América do Norte rendia 100% da distância voada, em torno de 10k pontos.

Na US Airways, era possível adquirir milhas do Dividend Miles por U$ 15 o milheiro, em promoções de venda com 100% de bônus, ou a U$ 11 o milheiro em promoções de compartilhamento de milhas com 100% de bônus. 

Já na American Airlines, o AAdvantage vendia milhas promocionais por volta de U$ 18 o milheiro, considerando promoções com bônus e descontos em conjunto.

Para resgates, o Dividend Miles era uma mãe. Apesar de existir uma tabela de resgates, com um pouco de paciência era possível ser bastante criativo nas rotas a serem voadas, ao se encontrar o agente certo.

Voando em companhias da Star Alliance, ida e volta em executiva do Brasil para os Estados Unidos ou Europa saia a 100k e para Ásia Norte, 120k. Em econômica era 60k, 70k e 90k e em primeira classe, 125k, 130k e 150k, respectivamente.

Veja que voar TAM possuía um melhor retorno que US Airways ou parceiros, embora este tivesse um valor imbatível para a Ásia.

Já com a American, voando em companhias da One World, ida e volta em econômica do Brasil para os Estados Unidos ou Europa saia a 40k e para Ásia Norte, 90k. Em executiva era 100k, 140k e 200k e em primeira classe, 125k, 180k e 260k, respectivamente.

O retorno da AA era parecido com o da TAM na econômica (melhor para a Europa) e mais caro para as demais classes.

HOJE

Dez anos depois, como estamos?

Os preços das passagens continuam praticamente os mesmos, apesar do dólar estar 130% mais caro. Nada mau.

Já em relação aos programas de fidelidade, todos fazem a promessa de serem fiéis na alegria e na tristeza, mas comportam-se como habitantes de Sodoma e Gomorra.

A US Airways fundiu-se com a American Airlines e o Dividend Miles deixou enorme saudade, mas como está o AAdvantage?

Uma viagem para a América do Norte em econômica rende por volta de 2,5k pontos, já que agora a pontuação é baseada no valor da passagem. Queda de 75% na quantidade de pontos.

Já os resgates ida e volta do Brasil em econômica estão 60k para a Am. do Norte, 100k para Europa e 130k para Ásia Norte. Em executiva são 115k, 175k e 235k e primeira classe, 170k, 240k e 280k, respectivamente.

Aumento médio em torno de 30% nos valores, embora alguns resgates tenham sofrido um pouco mais e outros, menos.

Já a TAM “fundiu-se” com a LAN e o TAM Fidelidade já virou Multiplus e, agora, Latam Pass. Fez parte da Star Alliance, da One World e, daqui a pouco, vai pedir música no Fantástico se entrar na Sky Team.

Como no AAdvantage, a pontuação ganha é baseada no valor da passagem. A mesma passagem da econômica que rendia 10k pontos, tal como na AA, agora dá 2,5k pontos, a mesma redução de 75%.

Já os resgates ida e volta do Brasil em econômica, em voos próprios, possuem o piso de 66k para a Am. do Norte e Europa. Em executiva é de 176k e 208k, respectivamente.

Já para voos em parceiros, os valores do piso em econômica são de 70k para Am. do Norte, 80k para Europa e 100k* para Ásia. Em executiva, é de 150k, 200k e 200k* e primeira classe, 240k, 400k e 260k*, respectivamente.

Os * acima são em função de não ser possível avaliar como ocorreria a cobrança dos valores de resgates para a Ásia, se seria cobrado o valor somando todas as regiões percorridas ou não. Em 2009, o resgate da maior parte dos parceiros da AA era feito por telefone e, 10 anos depois, estão quase todos online.

Já com a Latam, eram todos por telefone, mas passados 10 anos, não é possível resgatar nem por telefone, online, carta, fax, telex, pager…, à exceção de alguns poucos eleitos. Era de se esperar uma evolução tecnológica com o passar do tempo, mas isto é assunto para outra discussão.

Veja que os resgates em econômica sofreram reajustes de magnitudes semelhantes ao da AA, porém em classes superiores os aumentos foram muito piores.

CONCLUSÃO

E a qual conclusão cheguei?

Antes de começar a escrever, minha tese é de que a venda de milhas pelos próprios programas não era o problema, já que isso sempre existiu no mercado americano e a evolução dos mercados seguiu parecida. A Livelo, apesar de ter amplificado o alcance e o volume destas vendas, poderia ser considerada inocente.

O principal vilão seria o comércio de milhas, praticamente inexistente no mercado americano e um player fundamental por aqui.

Comparando os números, entretanto, não dá para afirmar isso. Continuo eximindo a venda de milhas, mas o grosso das passagens internacionais emitidas pelos mercadores de milhas são em classe econômica e, nesta cabine, estamos equivalentes à evolução do mercado americano.

Estas empresas parecem ter afetado muito mais os resgates de passagens nacionais, com aumentos percentuais muito mais significativos, mas isto é mais difícil de mensuração e comparação.

A grande diferença veio nos resgates de passagens em classes superiores, com valores que chegam a ser ridículos de exorbitantes. Se os mercadores de milhas têm atuação irrisória neste campo, só posso culpar os blogueiros por terem difundido as maravilhas de viajar com conforto por valores compatíveis com passagens de econômica. Né Non, Eloy, Guilherme, Beatriz, vocês são os responsáveis por Smiles, Latam Pass, Tudo Azul estarem tão caros para voar de executiva e primeira classe. Claro que dividido a responsabilidade com a direção das companhias aéreas que mal planejam e administram seus programas, sendo Multiplus e Amigo exemplares desta questão (tenho certeza de que ainda vazarão imagens e áudios do grupo de Telegram dos blogueiros citados, mas as delações dos diretores das empresas aéreas são absolutamente desnecessárias para comprovar a má gestão e desvios dos programas de milhagem).

Com todas as mudanças, voar e transferir pontos do cartão de crédito são absolutamente insuficientes para aproveitar o mercado de milhas e a compra de pontos é obrigatória para aproveitamento das possibilidades. 

Neste ponto, o mercado nacional atual ainda é melhor, na minha opinião, do que o de outrora pelas várias alternativas de compras de pontos em volumes mais elevados a preços ainda competitivos (à exceção dos ninjas dos pague-contas bancários).

No entanto, para uso das empresas estrangeiras a piora foi sensível, nem tanto pelas desvalorizações e mudanças de tabelas, mas principalmente pelo aumento significativo do dólar. Já naquela época, com um pouco de planejamento era possível adquirir volumes de milhas razoáveis por valores bastante competitivos.

Esta opção agora possui valores exorbitantes e acaba nos deixando reféns dos programas nacionais. Ainda dá para ir levando e aproveitando, mas parece que, em pouco tempo, precisaremos de outra crise mundial para colocar o dólar em valores razoáveis e nos abrir alternativas para darmos um tempo aos Tudo Smiles Pass daqui.

Agradeço ao Carlos por mais uma análise brilhante para a comunidade milhas e destinos!