B737-MAX: coragem para voar depois da liberação

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Gente, o B737-MAX é, provavelmente, o maior problema da história da aviação comercial da Boeing. Todas as aeronaves produzidas estão aterradas há mais de 6 meses, causando milhões de dólares de prejuízo – se já não passou da casa do bilhão – para a própria Boeing e para todas as empresas aéreas que estavam operando ou contavam operar com o modelo.

Além disso, a Boeing continua a produzir o B737-MAX e há estacionamentos lotados de aeronaves já comercializadas e aterradas, além daquelas que jamais levantaram voo. Há lugares em que os aviões estão ocupando o estacionamento de carros – veja na imagem abaixo, à esquerda!

Estacionamento lotado de B737-MAX
Estacionamento lotado de B737-MAX

Inicialmente programado para levantar voo em julho/agosto de 2019, as projeções mais otimistas, agora, já estão para janeiro de 2020.

Entretanto, a cada dia que passa, surgem mais informações desconcertantes sobre a conduta da Boeing durante o desenvolvimento do projeto da aeronave.

Ontem, o New York Times publicou um artigo extremamente comprometedor do discurso adotado até agora pela empresa, que sugeria que todos os cuidados tinham sido tomados durante a concepção da aeronave e que ela seguiu todos os parâmetros determinados pelas autoridades aeronáuticas estadunidenses.

Segundo o jornal americano, foram descobertas mensagens de um piloto de testes do modelo mencionando que o MCAS estava agindo imprevisivelmente no simulador de voo da companhia. O piloto em questão, Mark Forkner, era o chief technical pilot do B737-MAX!

O MCAS é o software que está no centro de todo o caos que se instaurou no B737-MAX. Em português, ele signfica Sistema de Aumento de Características de Manobra, que corrige o comportamento da aeronave em determinadas condições de anormalidade. O problema é que em duas ocasiões, o MCAS se comportou indevidamente e resistiu aos comandos manuais dos pilotos, o que levou a dois acidentes fatais com 346 vítimas.

Enfim, a Boeing, até o momento, tem sustentado o desconhecimento de qualquer anomalia no desenvolvimento do MCAS, o que foi desmentido com as mensagens de Mark Forkner em 2016, dois meses antes da certificação da aeronave pela FAA, a agência reguladora americana.

Essa informação levou a uma queda de 7% no valor das ações da companhia ontem.

Eu fico imaginando: o que passou na cabeça dessas pessoas – foram várias – em liberar uma aeronave nessas condições tão críticas? Se fosse algo simples de resolver, esses aviões já estariam no ar faz tempo …

Eu sei que todas as aeronaves, quando são lançadas, têm seus problemas. O B787 teve aqueles episódios com as baterias que chegaram a groundear as aeronaves por algum tempo (mas não chegou ao nível no MAX!). O A220 está tendo problemas com os motores também. Todavia, em nenhum desses casos tivemos acidentes fatais ou pessoas feridas.

Agora, ninguém da Boeing e do FAA pensou no impacto que isso teria no público do planeta? Sim, porque não estamos falando de uma aeronave utilizada em uma companhia aérea regional de um país desconhecido, certo? O MAX é um projeto de vendas globais para as maiores empresas do planeta!

Aí vem a minha inquietação: imagino que um dia o B737-MAX estará liberado para voar de novo, concordam?

Diante de todas as falhas, não só no projeto da aeronave, mas na concepção do software e na própria certificação pelas autoridades competentes, eu pergunto: vocês terão coragem de voar no B737-MAX quando ele for liberado?

Eu sei que se o Lito do Aviões e Músicas ler minha opinião, ele vai me chamar de ignorante para baixo. Mas eu confesso: não me sinto nem um pouco à vontade de voar nesse avião em um futuro próximo.

Talvez, em alguns anos sem nenhum incidente mais grave (porque se tiver outro acidente, aí é que eu não voo mesmo!), pode ser que eu tope a aventura. Mas não creio que isso aconteça em 2020, 2021, 2022 …