O problema da Avianca Holdings

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Recebi diversos pedidos para comentar sobre a situação da Avianca Internacional, tratada nos blogs Passagens.Top, Meu Milhão de Milhas e Mestre das Milhas neste fim de semana que passou.O receio geral é que o destino da Avianca Holdings seja o mesmo da Avianca Brasil.

Minha primeira colocação sobre o assunto é que a Avianca Brasil e a Avianca Holdings são casos bem distintos em diferentes aspectos:

  • história
  • posição no mercado
  • ativos
  • os programas de milhas

HISTÓRIA

A Avianca é a segunda companhia aérea ocidental mais antiga do mundo – a primeira é a KLM. Ela foi fundada em 1919 e é um dos orgulhos da Colômbia. Ou seja, estamos em plena comemoração de 100 anos da empresa. Não é pouco, meus caros, não é pouco!

Não sei se vocês sabem, mas a Avianca entrou em recuperação judicial em 21 de março de 2003 e saiu da recuperação em 10 de dezembro de 2004. Um dado interessantíssimo é que ela entrou com o pedido não na Colômbia, mas na corte do Southern District of New York, em Manhattan.

Essa é uma história fascinante para os colegas advogados. A Ley 500 da Colômbia, que regula os procedimentos de falência e recuperação de empresas, permite que uma empresa colombiana entre com esses pedidos em tribunais estrangeiros. Como grande parte dos lessores e credores eram americanos e os contratos de leasing tinham Nova York como local de solução de litígios, a corte americana aceitou o pedido.

Foi nessa época – em 2004 – que German Efromovich e a Oceanair Linhas Aéreas entram na história da Avianca. A Oceanair, criada em 2002, era uma subsidiária do Synergy Group, então controlado por Efromovich. A Copa Airlines e a Oceanair, essa em conjunto com o Synergy, fizeram ofertas pela Avianca, sendo a Oceanair a empresa vencedora.

Com o aporte de verbas e negociações complicadíssimas, a Avianca saiu plena e forte da recuperação.

Quem tiver interesse na história completa e nos meandros legais envolvidos, não deixe de ler esse artigo do Smith, Gambrell and Russell, LLP, o escritório responsável pela estratégia de recuperação judicial da Avianca à época (clique aqui para acessar).

A Avianca Brasil, por sua vez, foi a sucessora da Oceanair. Ela passou a existir em 2010 e, apenas oito anos depois, entrou com pedido de recuperação judicial.

Aqui, a Avianca Brasil provavelmente será uma nota de rodapé nos anais da História em alguns anos ou talvez se torne um case para o pessoal de Administração. O assunto ainda é quente porque nós, milheiros, temos/tínhamos interesse direto na empresa por conta das milhas e dos resgates. Gente comum perdeu muito dinheiro com a empresa, com a inutilização de centenas de milhares de milhas que, como todos sabem, têm valor patrimonial.

Um outro fato que ajudou no impacto da falência da Avianca Brasil no mercado de consumo foi a estratégia equivocada da TAP em anunciar que não honraria os bilhetes emitidos pelo Amigo. Não fosse isso, muito menos consumidores teriam sido afetados pela falência da empresa. Ou seja, fora da nossa bolha e da triste situação dos funcionários, a Avianca Brasil é relativamente irrelevante.

POSIÇÃO NO MERCADO

A Avianca Brasil nunca dominou o mercado brasileiro de aviação comercial e o mercado nunca dependeu dela para funcionar.

Das quatro grandes que tínhamos, ela era justamente a última colocada em diversos quesitos: destinos oferecidos, frota e número de funcionários são alguns que me vêm à cabeça sem qualquer tipo de pesquisa.

Já a Avianca Holdings domina o mercado colombiano tanto na área de passageiros, como no setor de carga. Aliás, no setor de carga a dominação é quase que absoluta.

No mercado de passageiros, a LATAM Colombia é rival direta da Avianca . A chilena-colombiana opera em 14 destinos domésticos e 4 destinos internacionais. Como LATAM tem ciência do problema da Avianca, ela aumentou a oferta de assentos na rota Bogotá-Medellin, o filet mignon das rotas domésticas na Colômbia, em 54% …

Vamos aos números da Avianca Holdings:

Diante desses números, o impacto da saída da Avianca Holdings do mercado seria imenso e afetaria não somente a Colômbia, mas El Salvador e, em menor escala, o Peru.

ATIVOS

A Avianca Holdings têm a maioria das suas aeronaves no sistema de leasing. Entretanto, ela é proprietária de alguns aviões. Uma das estratégias adotadas pela empresa para evitar um possível pedido de recuperação judicial é justamente a venda de 31 aeronaves próprias.

Ela vai se desfazer de toda a sua frota de aeronaves Embraer, e vai vender 14 A320 para a empresa americana Fortress, além de 13 aviões Cessna e dos ATRs para pequenas companhias aéreas colombianas.

A Avianca Brasil, por sua vez, tinha seus ativos concentrados nos slots, motivo de muita briga judicial em andamento. Ela foi obrigada a devolver as suas aeronaves, já que todas pertenciam a lessores. Com dívidas superiores a quase R$ 3 bilhões, a venda dos ativos amealhou míseros US$ 147 milhões.

OS PROGRAMAS DE MILHAS

Aqui também o panorama das duas empresas se diferencia bastante. Em primeiro lugar, o Lifemiles surgiu em 1992 e passou a fazer parte da Star Alliance em 2012. O Amigo como nós o conhecemos entrou para a Star Alliance em 2015.

Além de mais tempo de estrada, o Lifemiles possui uma diferença importante em relação ao Amigo: o programa brasileiro era um departamento da Avianca Brasil. Ele não tinha CNPJ próprio e não poderia sobreviver independentemente da existência da companhia aérea.

Já o Lifemiles é um programa carve-out, como era a Multiplus – que não existe mais depois que foi incorporada pela LATAM, e como é o Smiles.

A Avianca Holdings detém 70% da ações do Lifemiles, tendo o controle acionário da empresa. Em 2015, ano em que o Lifemiles foi reestruturado, 30% do Lifemiles foram vendidos por US$ 343,7 milhões. Ou seja, o Lifemiles tem valor próprio superior a US$ 1 bilhão.

Sabem quem adquiriu esses 30%? Uma única empresa – a Advent International, uma das maiores e mais experientes gestoras globais de private equity. Para vocês terem uma ideia, a Advent gerencia mais de USD 30 bilhões em ativos.

E o que isso implica? Uma maior responsabilidade na gestão do programa.

Desde a parceria com a Livelo, passado aquele período promocional inicial, nunca tivemos qualquer promoção com o Lifemiles. Na ponta do lápis, os resgates Lifemiles a partir de milhas adquiridas por meio de compra direta na Livelo ou via Clube Livelo muitas vezes sai pelo preço da passagem comprada diretamente com a companhia aérea.

É claro que o programa tem seus sweet spots. Mas, venhamos e convenhamos, o Amigo era um sweet spot gigantesco. Os blogs de milhas anunciaram aos 4 ventos e durante anos aquela First da Lufthansa que ia para Johannesbourg passando por Frankfurt por 90.000 milhas.

Nenhum executivo da Avianca Brasil deu um freio nisso. Só mudaram quando a empresa já estava com um pé no precipício.

Se o Amigo fosse separado da Avianca Brasil e tivesse uma Advent como minoritária, eu duvido muito que essa situação perdurasse por mais de um mês.

E ENTÃO? A AVIANCA HOLDINGS VAI FALIR?

É claro que eu não tenho como responder a essa pergunta porque não tenho bola de cristal e nem conhecimento interno da situação da empresa.

E vamos combinar que nenhum blogueiro ou leitor comentarista tem conhecimento suficiente da situação para fazer qualquer afirmação peremptória – com todo o respeito que tenho pelo Paulo, Guilherme, Eloy e por vocês, leitores.

O que fazemos aqui são exercícios meramente especulativos.

Como desenvolvi no post, as circunstâncias, inclusive históricas, da Avianca Holdings e da Avianca Brasil, são muito diferentes. Entretanto, eu entendo perfeitamente o temor de todos, até por que é o mesmo que o meu: perder milhas e, o pior, menos um programa da Star Alliance que é acessível para nós.

É preocupante que tenha sido dito expressamente pelos responsáveis da empresa que há possibilidade de falência, ainda que remota. Além disso, a Avianca Holdings teve um prejuízo de cerca de USD 400 milhões, que foi praticamente o valor emprestado pela United para a Synergy, acionista majoritário da Avianca Holdings para amenizar o problema da transportadora, cuja dívida chega a estratosféricos US$ 4.6 bilhões.

Lembro a todos que, geralmente, um plano de recuperação judicial é apresentado antes da decretação da falência de uma empresa. Então, antes da falência propriamente dita, é de se esperar que sejam tomadas todas as medidas legais antes de fechar a companhia.

Por outro lado, a Avianca já passou por uma situação muito delicada e saiu-se muito bem. A American e a United também passaram por RJs e hoje estão aí firmes e fortes.

A ideia que tenho – e posso estar completamente errada – é que os gestores da Avianca Brasil só tomaram providências quando já era tarde demais. Tivessem modificado o modelo de negócios há uns dois ou três anos e ajustado o Amigo, quem sabe, hoje a empresa ainda estaria voando.

A Avianca Holdings mudou de CEO e está se reestruturando. Eu espero muito que isso esteja sendo feito enquanto ainda há esperança de a empresa retomar seu curso sem a necessidade de medidas drásticas.

Quanto às milhas, um esclarecimento inicial: eu sou uma pessoa de perfil conservador em termos de investimentos. Não invisto em ações, por exemplo, e isso tem impacto direto em como administro minhas milhas.

Eu hoje tenho menos de 100.000 milhas Lifemiles, então não tenho grandes preocupações. Pelo sim, pelo não, só farei transferências para completar alguma emissão imediata e, de preferência, com companhias que voem para o Brasil. Nesse momento, eu não emitiria nada para voar com a Avianca em um futuro mais distante.

Posso até pensar em arriscar com a ANA All Nippon Airways, porque eu pessoalmente confio na honestidade japonesa. É arriscado, eu sei, mas isso sou eu, fã quase que incondicional do Japão.

Se eu tivesse um número mais robusto de milhas e com planejamento de viagem futura em mente, eu procuraria utilizar as milhas Lifemiles antes de queimar meu patrimônio em outros programas que não estão em situação tão delicada.

Agora me contem como vocês estão sentindo a situação da empresa e como pretendem agir em relação às milhas e passagens.

Ah, e mais uma coisa: esse foi um dos posts mais trabalhosos que eu já escrevi – fora aqueles tutoriais que se desdobram em diversos posts! Foram algumas horas de pesquisa investidas nessas palavras meramente especulativas. Haja amor pelo assunto! 🙂 <3

Espero que vocês tenham gostado! E se gostaram, por favor, compartilhem com amigos, colegas, família …

Copyright da imagem destacada: Luis Portillo